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terça-feira, janeiro 14, 2014

Troféu Vicentino da Serra - Portalegre

Depois de ter participado em 3 edições dos 100km de Portalegre em BTT entre 2006 e 2008, desde então nunca mais voltei a esta cidade do Norte Alentejano. A 'longa' viagem do Porto com direito a pic-nic na estação de serviço com tupperware de massa e tudo, fez lembrar muito as primeiras viagens quando comecei a fazer a Taça de Portugal de XCO de BTT. Chegamos a Portalegre ao inicio da tarde.

 

quarta-feira, outubro 23, 2013

UTAX - Ultra Trail Aldeias do Xisto

O quê? Fazer 88km com 5 000m de desnível positivo a correr? Eu há um ano atrás diria que isso é coisa de loucos e alcance de pouca gente depois de fazer o Trail de 30Km (http://www.joaomarinho.com/2012/11/ax-trail-lousa.html). Também diria que não estava nos meus horizontes fazer ultra maratonas na montanha apesar de sempre ter gostado de correr. A vida dá muitas voltas e passado um ano já fiz algumas ultras e acabei por me inscrever no UTAX.

Só sabemos os nossos limites se os tentarmos ultrapassar, assim sendo, o máximo que tinha corrido num dia foi 50km portanto estava a elevar bastante a fasquia. Siga! 

Adoptado pela família Desnível Positivo, rumei novamente à Serra da Lousã. Uma viagem muito animada como é costume com ''personagens'' deste calibre. Chegamos cedo, instalamo-nos numa casa a 100m (Obrigado Querido, Bruno Querido) da partida que desta vez foi em Castanheira de Pêra. Jantamos tranquilamente e assistimos ao briefing. Devido às condições meteorológicas, a prova tinha sido encurtada 15km, ou seja, passou de 88km para 73km. Quando o briefing terminou, a chuva caía impiedosamente, mas as previsões apontavam para uma melhoria significativa do tempo. Pp Todos nós rezávamos para que isso acontecesse...

Já em casa começou ''cowboiada''...muito me ri até altas horas da madrugada. Eram historias, eram anedotas, eram ruídos ''estranhos'', ninguém pregou olho até tarde...
A alvorada às 04.00h da matina mais parecia um choque de 220V. Apesar de nem todos arrancarmos às 06.00h, todos combinaram estar na partida para apoiar o inicio de uma longa jornada pelos trilhos das Aldeias do Xisto. Durante 1.30h corremos na escuridão...eu feito 'inteligente' levei o frontal, não na cabeça, mas na mochila. Tive de andar sempre com o pessoal porque não queria parar para o colocar na cabeça...enfim, dêem-me um desconto!

Sobre o percurso:

O percurso de 88 km de distância inicia-se na Vila de Castanheira de Pêra, na Praça da Notabilidade, tomando a direcção Oeste para o Parque eólico no cimo da Serra da Lousã. Depois de percorrer cerca de 7 km no topo desta cumeada, inicia-se a descida para as aldeias do Catarredor e Vaqueirinho, e daí para as Aldeias do Xisto do Talasnal, Casal Novo e Chiqueiro (Lousã). É então que o percurso se dirige para o "Terreiro das Bruxas" e daí sobe para o Parque eólico de Vila Nova, já no Município de Miranda do Corvo. Ao chegar próximo das primeiras eólicas inicia-se a descida para o Gondramaz, onde se inicia um novo troço de percurso bastante técnico e de declive acentuado marcado pela presença da ribeira de Espinho, suas cascatas e pontes em madeira.  Ao final desta descida, segue-se por cacilhas, rumo à Lousã.

À entrada da vila, o percurso segue pelo Caminho do Xisto - Rota dos Moinhos, passando ao lado da Fábrica do Papel do Prado, e acompanhando a Ribeira de S. João para montante, em direcção a um dos principais locais de visita deste concelho: o Castelo de Arouce, ermidas e praia fluvial. É neste momento que começa uma longa subida, inicialmente de suave inclinação até à Central Hidroeléctrica, que aos poucos aumenta de desnível, oferecendo em compensação excelentes panorâmicas. Depois de percorrer a levada, e de um longo troço de trilho técnico, surge a Aldeia do Xisto do Candal. Aos poucos abandona-se a aldeia e surge um novo trilho em direcção à aldeia de Cerdeira. A passagem por esta Aldeia do Xisto adivinha o fim desta longa subida e depois de um último esforço começam a avistar-se os aerogeradores de Vilarinho e o Trevim (ponto mais alto da Serra da Lousã - 1205 m).


Fonte: AXTrail Series

Os primeiros kms foram tenebrosos, doía-me tudo, e ao fim de 20km já estava a fazer contas como iria terminar a prova. Paguei a factura das aventuras no Douro e Marão...No Trail os kms passam muito devagar, tens que ter perseverança e resiliência. Quanto estamos imersos nos trilhos o tempo passa lentamente, as dores acumulam-se e temos ter ir buscar energia a tudo, principalmente à nossa cabeça. Uma ultra maratona é muito mais uma questão de cabeça do que de pernas. Mas as ultimas dezenas de metros antes de cortar a meta, a felicidade aumenta exponencialmente, a emoção toma conta de nós e (quase) esquecemos o sofrimento das ultimas horas passadas nos trilhos.

Muitos trilhos já conhecia das visitas anteriores à Lousã, fossem elas para correr ou para pedalar. Esta serra tem trilhos para todos os gostos, um autentico ''playground'' com as encantadoras aldeias do Xisto espalhadas por todo o lado. Mas sempre que venho ''cá'' fico a conhecer mais recantos. Este UTAX revelou-me trilhos que não conhecia e que felizmente estão a ser recuperados para fins turísticos.

Voltando à prova, por volta do km 45 comecei a cruzar-me com os atletas que estavam a fazer o Trail da Serra da Lousa, no famoso trilho da levada. Para mim era bom porque já não via gente há muito tempo. Já passava das 5h que estava na montanha, as pernas estavam pesadas, mas ainda conseguia manter um trote ''rápido'', mas algo estava a acontecer...quando parei no abastecimento do km 50 estava quase KO. Parei, sentei-me, comi, bebi e até um batido de recuperação fiz. Perguntaram se estava tudo bem comigo, porque estava com um aspecto esquisito. O Rochinha e o Urbano (amigos da ADA) perguntaram até se eu precisava de alguma coisa tal era o meu ''estado''.

Depois deste abastecimento, veio uma parede que fiz a caminhar. Os bastões fizeram falta, mas cismei em não levar, as pernas que me perdoem...Quando terminou a parede a ''coisa'' ficou quase plana e comentei com outro companheiro de luta que também ia a caminhar, devíamos fazer isto a correr. Ao longe comecei a ver uns pontos coloridos a subir um corta-fogo e disse, vamos aproveitar para recuperar...

Subir o mítico Trevim até nem foi problema, apesar do frio e vento que se fez sentir lá em cima, o problema foi mesmo descer os corta-fogos em direcção à Capela do Santo António da Neves...A inclinação e o piso era demolidor... Depois veio um longo single-track que nos levou até ao ultimo abastecimento no Coentral. Aqui cruzei-me com o Taxa e o Dionísio da Desnível. O abraço que me deram, traduziu-se em força extra para os últimos 10km.

Já conseguia visualizar a meta na minha mente. O sofrimento apesar de se fazer sentir de uma forma intensa, iria terminar em pouco tempo. Estes últimos kms feitos em alcatrão, com algumas rectas intermináveis pareciam que custavam mais a fazer que os trilhos do meio da Serra. Só pedia que o trilho fosse o mais directo possivel à meta, isto é, para não andarmos às voltinhas com a meta à vista. Felizmente que este meu pedido foi (quase) totalmente concedido.

Depois de 9.50min, com vários milhares de metros de acumulado ao longo de 73km, regressei ao ponto de partida. Este meu esforço foi contemplado com a 17ª posição. Para mim que há um mês atrás estava terminar uma prova de BTT de 7 etapas (Mongolia Bike Challenge) seguidos de 1 100km no deserto, este resultado foi muito bom. Inacreditável mesmo!

O Diogo Almeida foi o herói da equipa ao terminar o UTAX e a sofrer até ao fim. Esperamos por ele com a animação que nos caracteriza, sendo a nossa presença junto á meta bastante 'ruidosa'. 
Todos os atletas que alinharam na Ultra ou no Trail terminaram as suas provas, com a excepção do Bruno que devido a lesão foi obrigado a desistir. Parabéns a todos, Ester, Diogo, Bruno, Artur, Vitor, Renato, Dioniso, Pedro e Ricardo! 

A organização do UTAX está a cargo da Go Outdoor dos amigos Fernando e Ana. Nota-se que trabalham por paixão, que gostam daquilo que fazem. Organizar uma ''brincadeira'' destas é desgastante e está sempre sujeito a falhas. Apesar de alguns problemas pontuais com as marcações, o balanço é positivo e as falhas são facilmente corrigidas para futuras edições. 

O meu irmão completou a ultra de 45km, sofreu bastante, mas teve a tenacidade suficiente para completar a prova. Quando passei por ele lá no meio da Serra e lhe dirigi umas palavras dizendo que tinha a mochila aberta, só reconheceu que era eu quando passei por ele. Esperei por ele na meta para lhe dar um abraço ao melhor irmão do mundo!!!

Seguiu-se o jantar de confraternização...tenho flash's do ''conbibio'', dos jarros de tintol, da mousse de chocolate e de alguém a gatinhar por baixo da mesa. Muitos acontecimentos se passaram no regresso a casa e mesmo dentro da casa, mas eu dormi que nem um menino e só acordei no dia seguinte.

Esperamos a entrega de prémios para ver a Ester a subir ao lugar mais alto do pódio. Uma prova impressionante que ela fez. Estás de parabéns ''máquina''!
Depois dos ''parabéns'' cantados em coro, distribui fatias de bolo de aniversários por todos os que estavam presentes. Foi uma bela maneira de celebrar o 30º aniversário, rodeado de amigos e com uma ENORME dor de pernas.

Uma nota de reflexão, no dia seguinte além de poder caminhar sem limitações, pedalei cerca de 3h tranquilamente. A dor de pernas estava lá, mas este 'sentimento' de querer e poder pedalar e caminhar foi inédito no dia seguinte a uma ultra. 
Será de ter feito uma melhor gestão do esforço? Será que o empeno é inversamente proporcional aos kms? Será que o meu corpo está a começar a habituar-se ao Ultra Trail? Será que eu tenho de aumentar (ainda) mais os kms para no dia seguinte querer e conseguir correr? Como alguém diz, 'vale a pena pensar nisto'.

Obrigado à Desnivel Positivo pela diversão. Sem duvida que esta equipa é uma referência no Trail nacional a todos os nivéis!
Obrigado à Ancorensis por ceder a carrinha ''mágica'' para nos transportar. 
Obrigado André pelas coisas que me emprestastes. Os bastões também deveriam ter vindo...
Obrigado a todos os que me cantaram os parabéns!
Obrigado à organização por mais um UTAX!

Venha a próxima...ULTRA!

Mais fotos na minha página de atleta no Facebook: https://www.facebook.com/marinhojoao














domingo, fevereiro 12, 2012

Pedalar na Serra do Sicó

Depois de uma manhã de sábado a pedalar pela cidade de Coimbra, na manhã de domingo foi a vez de pedalar na Serra do Sicó. Esta serra está bastante próxima da cidade e caracteriza-se pela forte abundância de pedra. Os seu ponto mais alto tem ''apenas'' 530m mas as partes planas são escassas o que a torna num autentico roupa pernas. Tem uma beleza bastante característica que a torna única em Portugal. As propriedades sejam elas grandes ou pequenas são vedadas com muros de pedra que tem largas centenas de anos. Tudo feito à base de força humana\animal o que de facto impressiona. A serra está também relativamente próxima do mar e juntando isso ao facto do terreno ser rochoso, não possui grandes cultivo. É portanto uma serra ''deserta'' com aldeias distribuídas aqui e ali. Já por aqui tinha pedalado noutras ocasiões mas em competição, agora com uma boa companhia e com outro ritmo tive o prazer de contemplar esta serra. Apesar de estar um dia de céu limpo as temperaturas foram muito baixas e isso associado ao vento tornou a volta bem ''fresquinha''!

 
 
 
 
 
 
Enfrentar uma serra deste género claro que temos de nos rodear de material fiável que nos dê garantias de segurança e fiabilidade. Troquei algumas impressões com os companheiros de pedalada acerca disso...há peças que não vale a pena sacrificar a segurança em trocas de algumas gramas! A minha bicicleta (Rocky Mountain Element Team RSL ) pesa provavelmente mais 1kg que outras equivalentes mas não tenho problemas em enfrentar seja qual for o terreno. Pensem nisso!


O homem do marreta quase que apanhou o Nuno, mas felizmente que tinha ''reforços'' na mochila...Também para quem esteve parado 2 meses não foi muito mau. Agora há que dar continuidade ao trabalho, leia-se treino!

 


 Obrigado Nuno e Pedro pela companhia e até breve!

 

sábado, fevereiro 11, 2012

Pedalar em Coimbra...

Coimbra, terra de mil encantos, da centenária universidade, dos estudante, do rio Mondego, da Rainha Santa Isabel, de poetas, escritores, cantores...uma cidade apaixonante e que por incrível por pareça, ainda não conhecia inteiramente. Hoje foi o DIA, o Nuno Simões, amigo do pedal foi um verdadeiro anfitrião e levou-me a conhecer esta bela cidade do centro do país. 

Primeira paragem no Miradouro do Vale do Inferno onde se pode contemplar toda a cidade.

Depois seguimos para a imponente Igreja da Rainha Santa Isabel


Descemos a calçada em direcção ao Portugal do Pequenitos. Obra sonhada e erigida por Bissaya Barreto e que retrata Portugal em ponto pequeno.


Aproveitamos para apreciar o impressionante de reconstrução da Igreja de Santa Clara a Velha...


Passagem pela incrível ponte pedonal sobre o Rio Mondego...


As docas foram próxima paragem onde pude dar um ''abraço de urso''


 Parque Dr. Manuel Braga, Hotel Astória e Banco de Portugal 


Depois uma incursão pelo centro da cidade com passagem pela Rua Ferreira Borges, Praça 8 de Maio e Praça Velha


O pátio da Universidade de Coimbra é uma visita obrigatória. Esta universidade é uma das mais antigas da Europa e do Mundo! Mandada construir por D. João III no século XIII (treze) é um marco incontornável na historia de Portugal. A energia que se sente neste local é indescritível. Passar pela Porta Férrea é como se tivéssemos a entrar numa dimensão diferente....


Para acabar uma visita ao Jardim Botânico e ao Penedo da Saudade onde noutros tempos os estudantes ali faziam as suas tertúlias....



Houve ainda tempo para umas brincadeiras...

 

Depois desta tarde considero-me uma pessoa mais ''rica'' culturalmente. Como dizem e muito bem, ''vá para fora cá dentro!''

Este fim de semana a vitima foi a Element Team RSL...um verdadeiro sofá que já tinha saudades de utilizar. Depois de usar algum tempo rígidas, seja roda 26'' ou roda 29'' o pensamento que veio à cabeça foi...uma suspensão total é sempre uma suspensão total. Se for roda 26'' melhor, porque ajuda imenso para brincar e fazer o que se quer da bicicleta.


Obrigado Nuno pela companhia!

Love the Ride

quarta-feira, julho 13, 2011

Eurotrip - Atravessar a Europa a pedalar!

Texto escrito em 2006

Dados 
Nome de Código – Eurotrip
Missão – Atravessar a Europa de Bicicleta
Participantes – João Marinho e José Silva

O texto que se segue apenas relata uma mínima parte do que vivemos ao longo dos 29 dias e mais de 4100km a viajar pela Europa ao longo de vários países – França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Luxemburgo, Suiça, Itália, Mónaco, Andorra, Espanha e Portugal.


A ideia desta aventura surgiu logo após termos terminado a Via da Prata no ano passado, atravessar o velho continente transversalmente partindo de Paris e terminando em Portugal. A ''olho'' apontamos para os 4000km num mês. O problema inicial e deveras importante era reunir o “capital” necessário para comprarmos por exemplo o atrelado, a tenda, o fogão ou os bilhetes para Paris. O dinheiro que conseguíamos amealhar ao longo da época nas provas de BTT foram encaminhados para as despesas da aventura acrescentando alguns apoios extras essenciais. Éramos na altura estudantes finalistas e portanto ''tesos'' daí que todos os cêntimos contribuíram para tornar possivel esta mega-aventura!


O início
Dia 8 partimos de Amarante a pedalar em direcção a Vila Real onde pretendíamos apanhar o Bus no dia seguinte que nos levaria a Paris, testando assim a mobilidade do conjunto Bicicleta + Atrelado + Carga. Subir a Serra do Marão foi a prova que esta aventura não seria nada fácil. O peso total ultrapassava os 120kg e tínhamos que utilizar desmultiplicações muito mais leves e bastantes diferentes do que estávamos habituados. Já referi que pretendíamos ir de Bus até Paris mas o plano saiu furado pois foi-nos dito que era proibido transportar as bicicletas no bus em caixas de cartão, tivemos que procurar uma solução rapidamente. Esta foi ir ate á Guarda de bicla e aí apanharmos o Sud Express (Comboio que liga Lisboa a Hendaya - fronteira entre Espanha e França). Neste caso já não haveria problema pois já tínhamos viajado há dois anos quando fizemos o caminho Francês de Santiago. Estão a imaginar o processo? Chegar a Vila Real, embalar tudo, ir para a estação, suplicar para nos transportar, regressar a casa, desembalar tudo e preparar para pedalar novamente...


A viagem iniciou-se tranquilamente de Vila Real, passando por Régua, Lamego, Moimenta da Beira, Trancoso e eis que reparamos que estávamos em cima da hora para apanhar o comboio na Guarda. Ligamos para o nosso amigo Alexandre (dono agora a Garbike) para nos resgatar e nos entregar na estação. Assim o fez e ainda deu tempo para um banho e um jantar rápido em casa dos pais!



Depois iniciou-se a aventura dentro do comboio. Eram duas bikes e dois atrelados ''estacionados'' no corredor do comboio, pois não havia lugar para colocar noutro lado. Os comboios que faziam a linha Sud-Express eram antigos, sem condições para os passageiros e muito menos para a bagagem. Funciona tudo a monte e fé em Deus!Assim que entramos em Espanha vieram os primeiros problemas...o cobrador queria que saíssemos na próxima estação porque a bagagem não podia estar ali mais tempo. Ficamos incrédulos e tentamos demo-vê-lo sem sucesso. Eram 2 da manhã e estávamos próximos de Salamanca , tínhamos de arranjar uma solução e depressa. Encontramos um WC que serviu de dispensa para a nossa bagagem e para nos aliviar durante umas horas...até chegarmos ao País Basco. Aí acordamos e assim nos mantivemos pois foi-nos dito que esta região poderia ser complicada. Mas felizmente correu tudo bem...
Na fronteira de Espanha com França (Hendaya) trocamos a velha carruagem da CP pelo moderno TGV. Aqui encontramos arrumo próprio para as nossas caixas e fizemos uma viagem tranquila até Paris...




A aventura Europeia 

Em Paris iniciou-se a aventura com as visitas obrigatórias a Torre Eiffel, Campos Elísios e Arco do Triunfo. Queríamos ir a mais locais mas como tínhamos pouco tempo até anoitecer e pretendíamos sair desta grande metrópole para acampar, optamos por nos despachar. Atravessamos os subúrbios da cidade cruzando com um Mix de culturas: eram indianos, chineses, árabes e negros, parecia que estávamos a viajar de continente em continente, fascinante. Uma rotina neste dia se iniciou -  fazer compras, procurar local para dormir, montar a tenda, fazer jantar, lavar a louça e descansar para o dia seguinte. No dia que saímos de Portugal estava um calor abrasador sem imaginar sequer que iríamos acordar logo no primeiro dia no estrangeiro com chuva a cair sobre a  tenda, mas esta foi realidade durante vários dias. A civilização parecia outra, estradas em óptimo estado e apesar de grandes rectas os carros cumpriam á risca os limites de velocidade. As florestas estavam verdejantes junto da estrada, valetas limpas, ciclovias, vilas floridas (em França existe um prémio anual para a vila mais florida), pessoas sempre dispostas a tirar duvidas etc.

Encontrar Portugueses não era difícil, em St. Quentin na associação de Portugueses local depois de nos tirar algumas duvidas sobre a estrada que pretendíamos fazer ainda nos pagaram uma bejeca. Depressa chegamos á Bélgica e á capital Bruxelas visitamos o centro histórico onde havia uma exposição de 700 000 begónias na praça á frente do Hotel de Ville (Paços do Conselho), deslumbrante !! Passamos pelo edifício da Comissão Europeia, o Arco do Centenário…seguimos em direcção a Antuérpia circulando na totalidade em ciclovias com sinalização respectiva, infra-estruturas adequadas: definitivamente estávamos noutro mundo. Os carros de alta gama a circular eram uma constante e muita da conversa que tínhamos passava por aí. A chuva não nos dava tréguas, entramos na Holanda completamente encharcados, lembro-me de ter um furo e as mãos não colaboravam tal era o frio que tínhamos.




A entrada no país das tulipas revelou-se “molhada e gelada” e depressa chegamos á conclusão que tínhamos de parar apesar de ainda termos “apenas” 100km e ser o início da tarde. Fomos forçados a ficar numa pensão que nos disseram que era o mais barato que havia apesar de investirmos 60€ por um quarto duplo, mas que foi a única vez que pagamos para dormir nos 29 dias de viagem. Holanda tem a fama de ser o país das bicicletas e comprovamos isso, toda a gente pedala sejam homens ou mulheres, velhos ou novos, o relevo também ajuda pois fizemos cerca de 400km planos neste país.



 

O inglês não era problema para obter informações quando precisávamos, qualquer pessoa o falava fluentemente o que mostra também o desenvolvimento do país. Já na Alemanha passamos a primeira noite na cidade que acolhia os campeonatos do mundo de equitação – Aachen e dormimos num estabulo junto de vacas por cima de palha, resultado da conversa com um casal de ciclistas ao qual perguntamos se existia algum local abrigado onde pudéssemos pernoitar e como interpretes encaminharam-nos para uma quinta de agricultores que nos acolheram sem hesitar e ainda acabamos a jantar e tomar o pequeno almoço com eles. Agora a parte engraçada foi que eles não falavam inglês nem nós entendíamos nada de alemão o que tornou o diálogo praticamente impossível, era vê-los a falar sem parar e nós só dizíamos que sim e sorriamos. Foi uma experiência única.

Já no Luxemburgo fomos recebidos pela família Marques e jamais imaginávamos a que ponto a bondade dos Portugueses pode chegar. A Sra. Marília Marques reparou na bandeira nacional no atrelado e dirigiu-nos umas palavras em Português que íamos na estrada, contamos o que andávamos a fazer e depressa nos acolheu como se fossemos família, reparem: jantamos com a família toda, lavou-nos e secou-nos a roupa, deram-nos cama, no dia seguinte um pequeno almoço reforçado, e ainda nos fizeram uma visita guiada pela vila (Colmar Berg) que por acaso era onde vivia o grande duque do Luxemburgo e por isso era favorecida com grandes jardins com lagos e vegetação condizente. Seguimos em direcção a Estrasburgo, contemplamos a região dos Vosges na província Francesa de Alsace, onde as serpenteamos por uma estrada onde as florestas e os lagos eram magníficos. Foi aqui que a chuva se fez pagar, ficamos sem máquina fotográfica devido á entrada humidade o que viria a ser desesperante passar em certos locais sem os poder “levar” connosco.


A recepção em Soufflenhein cidade natal do Zé meu companheiro de viagem não podia ter sido melhor, acabamos por ficar aqui cerca de um dia e meio a descansar e para o Zé matar saudades da terra que o viu partir há 18anos. O tempo foi dividido pela diversa família dele que ainda lá se encontra. Foi um recarregar baterias em diversos aspectos entre os quais o comer ate não poder mais.

Suíça e com ela os Alpes
Próximo desafio no qual estávamos receosos foi ultrapassar a Suíça, íamos com a ideia de fazer grandes subidas e logo no início de facto subimos aos 1000m e comentamos que se continuasse assim estávamos tramados mas depois desta primeira dificuldade a estrada suavizou. Íamos apreciando uma fantástica paisagem, aqueles postais que conhecíamos de grandes encostas verdejantes com grandes manadas de vacas a pastar confirmavam-se.

Chegamos ao ponto em que avistamos o lago Léman do alto da montanha onde estávamos. Faltam-me as palavras para transmitir a beleza que inundou o meu olhar. Ver um gigantesco lago rodeado de impressionantes picos que chegavam que atingir os 2500m de altitude e alguns deles com neve foi no mínimo brutal. Ao observar tal beleza durante a descida para o cidade de Montreux que é banhada pelas águas do lago soltou-se uma lágrima por não poder tirar uma foto para mais tarde recordar. E disse para mim mesmo que um dia voltaria a este local. Col de San Benard, fixem este nome, pois quando quiserem subir 45km até aos 2500m de altitude aqui podem-no fazer. Demoramos cerca de 5horas a ultrapassar este pico que fazia fronteira com a Itália. Paramos diversas vezes para comer até para nos vestir porque apesar de estamos a subir fortemente já nos encontrávamos no meio do nevoeiro e junto da neve e o frio apertava. Encontramos um Inglês que pedalava em “roda fina” mas tal era a inclinação que foi obrigado a desmontar tirar as sapatilhas porque tinham os encaixes de próprios de umas sapatilhas de estrada e fazer o resto da subida a pé e descalço. O limite físico estava próximo pedalávamos por vezes a 5km\h aos “ésses” sem ter o fim á vista. A placa 2474m marcou o fim da subida e atingimos um albergue onde trocamos a roupa encharcada pelo suor e vestimos toda roupa que tínhamos, aliás o Zé vestiu mesmo as calças normais de bombazina, valia tudo.



Entretanto Chegou o inglês num estado deveras “prejudicado” e o pior era que tinha de fazer a descida de cerca de 20km em calções até á cidade de Aosta. Saímos do Albergue já com as luzes montadas pois já era de noite e começamos a descer sem ver 10m á nossa frente, na fronteira os “Carabinieri” deram-nos ordem para seguir sem sequer parar. De repente na descida o nevoeiro desaparece e uma vista deslumbrante surge, estava luar conseguimos ver os contornos das montanhas á nossa volta e lá bem em baixo o vale de Aosta iluminado, fiquei sem respiração, de noite a descer os Alpes nem queria acreditar. Descemos cerca de 15km a medias superiores a 60km\h colados aos carros que iam á nossa frente e assim tínhamos iluminação necessária. Em Torino tivemos á conversa com um italiano que nos aconselhou os locais que deveríamos visitar na costa de França e que nos chamou atenção para perder um pouco de tempo a conhecer esta cidade pois tinha muitos vestígios da presença romana e de facto tinha razão, valeu bem a pena pois esta cidade é muito rica em monumentos romanos.

Na subida para Col di Tenda ainda se encontravam pintados no asfalto as vedetas do ciclismo mundial (Basso, Cunego, Savoldelli, Simoni). Alcançamos os 1900m e enormes montanhas perdiam-se no horizonte. Encontramos um casal de Italianos que também andavam a pedalar e que foram nossos fotógrafos para nos tirar umas fotos. Quando lhes contamos o que andávamos a fazer perguntaram se tínhamos cocaína no atrelado pela quantidade de quilómetros que já tínhamos nas pernas em tão pouco tempo e pela quantidade que ainda íamos fazer.


Descemos cerca de 10km na Strada del Serpente Lunga que fazia jus ao nome pois mudávamos a direcção em 180º a cada 100m. De referir que estes 10km não eram mais que dois trilhos marcados pelas rodas dos jipes que por lá passavam. Aqui fizemos o verdadeiro teste aos atrelados e passaram com nota máxima, descemos a grande velocidade, era como se não levássemos atrelado. Atingir o mar Mediterrâneo foi rápido pois fizemos cerca de 65km sempre a descer, numa estrada que fazia lembrar um filme do Indiana Jones que serpenteava entre desfiladeiros de montanhas com o nome de Alpes Marítimos. Já no Mónaco tivemos a real noção do que é alto nível de Vida, Eram super carros, super iates, super casas etc. Estávamos numa realidade bem distante mas sabia bem apreciar aquele ambiente, era diferente de tudo aquilo que já tínhamos passado.


Aproveitamos para dormir na praia e dar um mergulho na água morna e límpida da Cote d’Azur. Houve momentos que fechava os olhos enquanto pedalava junto ao mar como se tivesse a sentir pela primeira vez um perfume, foram sensações únicas. Nem tudo são rosas e pagamos a factura, dias seguidos de vento contra tornaram a tarefa bastante complicada. Em Méze perto de Montpellier fomos acolhidos pela família Rodrigues quando já andávamos a desesperar por um lugar para dormir, mais uma vez a bandeira salvou-nos. Conhecemos a família quase toda e partilhamos bons momentos de convívio.

Pirenéus doeram
Os Pirenéus aproximavam-se e o cansaço já se sentia, as pernas já pediam descanso mas tal não era possível e subimos cerca de 40km ate aos 2500m e entrar assim em Andorra por Pas de la Casa, mas a subida foi um verdadeiro martírio as dores de pernas, de joelhos e de braços eram constantes: estávamos no limite, quando atingimos o topo as dores eram medonhas. Em Andorra la Velha decidimos descansar um dia e aproveitar para conhecer melhor e comprar algumas lembranças entre as quais uma máquina fotográfica.



A descida de Andorra também foi caricata...estávamos nós tranquilamente a conversar lado a lado numa estrada com pouquíssimo movimento quando vimos um carro da Guardia Civil atrás de nós. Não estava colado, estava a observar-nos. Estranhamos mas não ligamos, mas quando paramos na próxima povoação veio uma mota da Guardia Civil ao nosso encontro dizendo que nos viram a fazer ''ésses'' na estrada e que nos queiram apreender as ''bicis''. Ficamos estupefactos e tentamos explicar a situação com o nosso ''Portunhol''. O policia não se queria convencer e insistiu que nos iria apreender as bicicletas. A muito custo deixou-nos ir, mas carros da policia a cruzar-se connosco foi uma constante durante os kms que vieram a seguir!


A ânsia de chegar a Portugal era grande, atravessamos Espanha a uma media superior a 200km por dia e fomos buscar as forças não sei bem aonde. Pelo meio do “deserto” espanhol cruzamo-nos com um “oásis”. Nem queria acreditar quando uns amigos de Amarante saíram de uma caravana com bolos e cervejas para nós, era quase um milagre tal coincidência. Tinham feito uma viagem pela Europa e como sabiam que pela Europa também nós andávamos, tinham o feeling que nos pudéssemos cruzar. Apesar da remota ideia acreditavam que tal acontecesse e não que aconteceu mesmo no meio daquela planície tórrida, foi mesmo inacreditável. A policia voltou a vir ao nosso encontro, mas desta vez foram uns policias simpáticos que beberam uma cerveja connosco e até pousaram para a foto!


Antes de entrar em Portugal tivemos um pequeno grande percalço. O aro da minha roda traseira da minha bicicleta cedeu. Tentei concertar com tampas das latas de atum, mas sem sucesso. A solução seria mesmo comprar uma nova roda, o problema é que a próxima cidade estava a 50km de distancia e a roda não parecia aguentar até lá. Foram momentos em que receamos o pior e assim que chegamos a Saragoça compramos de imediato a roda!



Finalmente Portugal

Eram 20h e estávamos nós em Zamora, cerca de 80km de Portugal. Já tínhamos pedalado 210km e só pensávamos em Portugal. Nessa altura fomos ao Burger King comer um Mega Master hambúrguer para termos energia até chegarmos a Portugal. Comemos tudo a que tínhamos direito e partimos nós em direcção às terras Lusas! Até pedalamos na autovia entre Salamanca e Zamora!!



Entrar em Portugal foi outro momento único, eram mais de 22h e já tínhamos perto de 290km em 11horas em cima do selim estávamos completamente exaustos mas tínhamos chegado ao nosso País finalmente. A barragem da Bemposta onde o douro internacional nos contemplava com paisagens únicas foi o melhor cartão de visita. A calor era abrasador não sei como conseguíamos pedalar naquelas serras transmontanas.
O local não era propriamente um local de cinco estrela, mas deu para os gastos. Uma pequena capela junto a um jardim serviu perfeitamente para nos acomodar. A mangueira que alimentava o sistema de rega do jardim, foi o nosso chuveiro...
 


Os locais começavam a ser familiares, estamos perto de casa. Vila Real seria a ultima noite antes de Amarante, a cidade que nos viu partir havia quase um mês. A subida do Marão foi a ultima dificuldade, a felicidade transbordava pelos nossos olhos… Estávamos quase em casa, tínhamos chegado são e salvos e os nossos pais podiam estar descansados… Resta saber até quando. (La Ruta de Los Conquistadores aproxima-se!)

Agradecimentos
Queremos agradecer aos nossos pais por continuarem a gostar de nós apesar de todas estas nossas excentricidades, ao Sr. Jorge da Biciporto que mais uma vez nos ajudou imenso, ao Fernando Cardoso pelo que fez por nós e já agora ao Jean Monet porque a sua visão sobre a Europa nos facilitou muito a vida nesta viagem.


A alimentação

O almoço sempre foi à base de sanduiches de enlatados (atum, sardinhas, lulas), pois era rápido e económico. Ao jantar tentávamos fazer massa e sopa (em pó) pois levávamos os utensílios para isso no atrelado (fogão, panelas, talheres). Durante o dia aproveitávamos a fruta da época que ''colhíamos'' por onde passávamos. Bolachas com recheio de chocolate, e chocolate com pão foram outros dos alimentos calóricos que fomos ingerindo durante os longos dias a pedalar! Uma vez ou outra íamos comer ''fora'' mas só em ultimo recurso pois o orçamente era muito curto!






Atrelado
Depois de muita pesquisa efectuada, optamos pelo Webber Monoporter de uma roda e com amortecedor. Portou-se bem apesar do muito peso que carregava. Os pontos fracos são: Instabilidade em certas ocasiões por ser de uma roda, e algumas peças que podiam ser mais resistentes embora não comprometessem o rendimento. O preço reflecte a qualidade do material alemão.. Nos pontos fortes temos que aguenta bem os abusos, é muito compacto, passa por onde a bicicleta passa, é silencioso em terrenos sinuosos e não “salta”.

Bicicletas
Foram as nossas bicicletas de competição com material de gama media alta que se portaram bem apesar de ter sido forçado a trocar a roda traseira porque o aro tinha partido, resultado do desgaste. Bom material é um bom pronuncio para que tudo corra bem com a mecânica.


Texto: João Marinho – joao.nexplore@gmail.com
Fotos: João Marinho e José Silva