terça-feira, junho 21, 2011

Caminho de Santiago - Via da Prata

Decidi partilhar com vocês as minhas memorias dos agora tão em voga Caminhos de Santiago. Para quem não sabe os Caminhos de Santiago são caminhos que unem vários pontos da Europa e do Mundo a Santiago de Compostela em Espanha. Eu já\apenas fiz 3 :

Caminho Português - Amarante Ponte de Lima Santiago de Compostela em 2003
Caminho Francês - St. Jean Pied du Port (França) - Santiago de Compostela em 2004
Via da Prata - Sevilha - Santiago de Compostela em 2005

É por este ultimo que irei começar. Texto escrito em 2005:


Os caminhos de Santiago sempre nos fascinaram pela aventura que proporciona. O caminho Português foi um bom aperitivo para o caminho Francês e depois para a Via da Prata (V.P). Durante o ano eu e o Zé fomentamos a ideia de que este ano as férias seriam para fazer a VP. As provas de BTT param em Agosto que coincide com as férias escolares e essa seria a altura ideal. 


Convencemos o Daniel a vir e depois o Nuno e o Vítor. Ficou definido que iríamos de Bike para Sevilha, com mochila nas costas pela liberdade que proporciona nos trilhos e que teríamos 15 dias para fazer todo o percurso o que torna á partida um desafio para todos. Partimos de Amarante na 2ª eu o Zé e o Vítor seguimos para Sta. Mª. Da Feira levando o Daniel connosco e depois seguiu-se o Nuno em Aveiro. Cruzamos Portugal passando por Coimbra, Tomar Abrantes, Aviz, Évora até Beja e depois atravessamos a fronteira em Vila Verde do Ficalho e chegamos a Sevilha na sexta com cerca de 850km. 

Perto de Aviz passamos por um Holandês que andava a gozar umas ferias de um ano (que inveja) de bike e que pesava 34kg com os vários alforges. A chegar a Sevilha cruzamos com um Checo que tinha partido de Itália com uma bike que tinha encontrado no lixo em Veneza e que serviu para transportar a (muita) carga que trazia. Ficamos estupefactos! Vou citar uma frase de António Malvar ‘‘Estas personagens e a sua tenacidade foram galvanizantes da nossa motivação’’.


Para se recordar de Portugal e dos Portugueses ofereci-lhe a minha bandeira de Portugal. Esta primeira fase correu bem, dormimos nos bombeiros de Tomar e de Évora, não houve problemas com as bikes, de registo o empeno do  Zé no dia que entramos em Espanha, eu que o conheço há alguns anos nunca tinha presenciado tal!! Chegamos a Sevilha debaixo de um calor tórrido de 39º. 


Fomos á Catedral carimbar a credencial e logo iniciamos o caminho á procura de setas amarelas. Chegamos a Guillena já de noite com direito a escolta policial onde pernoitamos no balneário no recinto desportivo. Arrancamos cedo na ânsia de encontrar os primeiros trilhos e assim foi atravessamos o Parque Florestal El Berrocal e a chegar a Almaden de la Plata subimos ao alto del Calvário onde apreciamos a paisagem do parque. Junto a esta povoação encontramos uma figueira onde todos se ficaram a queixar do ardor nos lábios de tantos figos ingeridos. Durante o percurso cruzamo-nos por vários rebanhos e por uma vegetação que faz lembrar o Alentejo. 


Em Real de la Jara compramos pão e umas conservas e fizemos o nosso almoço. Seguiu-se uma travessia até  Monsterio onde não havia nenhuma povoação pelo meio e que terminava com uma subida de 10km. Passamos por depósito de água que servia para refrescar um aviário e tentamos arranjar uma torneira para nos abastecermos mas nada havia a não ser um pequeníssimo corte no tubo e foi assim que saciamos a nossa sede. E como o que tudo sobe, desce, seguiu-se uma descida por trilhos onde se atingiu velocidades de 60km\h. Em Calzadilla de los Barros jantamos no único restaurante que estava aberto onde comemos a primeira de muitas vezes batatas fritas e calemares (lulas fritas). 

O albergue encontrava-se num local isolado e tinha um problema com a água canalizada, optamos assim por dormir ao relento na centro da povoação num parque infantil. O pequeno-almoço, que deve ser a refeição mais importante do dia, foram apenas algumas bolachas e um galão pois era domingo e estava tudo fechado. Em Zafra cruzamo-nos com os primeiros peregrinos de bike, era um casal. 

Já estávamos na província de Estremadura onde atravessamos largos quilómetros de planícies onde as vinhas perdiam-se no olhar. Em Torremegia devido ao muito calor que se fazia sentir o Daniel teve uma quebra e foi com o Victor por estrada cerca de 10km até Mérida. Como era domingo não havia quase nada aberto acabamos ir por almoçar na Telepizza e que bem que soube. Enquanto esperávamos, numa mesa estavam três fatias de pizza que alguém teria deixado e nem hesitamos fomos busca-las e devoramo-las na casa de banho. Aqui encontramos vários vestígios da presença romana, alem das duas pontes sobre os rios Guadiana e do Albarrega o que mais impressiona é o enorme aqueduto que abastecia a cidade. 

A saída da cidade revelou-se complicada devido há inexistência de setas amarelas e que tivemos que nos socorrer á nossa ´´bíblia´´(Guia do Caminho) que tanto jeito nos fez ao longo do caminho. Uma presa romana em Proserpina quase nos fez parar para tomar banho, mas devido à escassez do tempo, seguimos até Alcuescar onde chegamos já de noite e ficamos albergados na Congregação de escravos de Maria. Aqui fomos muito bem recebidos e,  apesar de ser servido apenas ás 9h, optamos por aceitar a oferta do pequeno almoço pois na segunda era feriado nacional e dificilmente iríamos encontrar sítio para tomar um bom pequeno almoço.
 
Revelou-se uma escolha bastante acertada pois foi o melhor que tomamos ao longo de todo o caminho. De referir que á noite o jantar foi mais uma vez batatas fritas e calemares, fomos dormir já com fome. Em Cáceres passamos por Portugueses que estavam de passagem mas de carro (que bem que sabe ouvir falar Português). Estava um calor sufocante de 43º, e ao longe parece que vimos uma miragem de um oásis, era uma piscina que pertencia a um clube náutico e comentamos que bem sabia um banho com este calor. Na entrada estava uma placa de propriedade privada mas entramos com ideia de arranjarmos agua pois os nossos bidons estavam vazios. 

Uma senhora informou-nos que não havia mais nenhuma agua a não ser a da albufeira do rio Tejo que era donde vinha a agua dos chuveiros junto á piscina e foi lá que enchemos os bidons e que bem que soube pois não havia mais nenhuma apesar de nós vermos a albufeira com a coloração verde. Depois surgiu o responsável pelo clube que foi mesmo muito simpático e nos ofereceu a piscina. Nós nem queríamos acreditar!! Difícil foi depois sair. 


Entre Cañaveral e Galisteo passamos por trilhos muito rápidos e de grande beleza mas as várias cancelas que existem por causa do gado obriga a parar constantemente. Nesta parte do percurso tanto o Daniel com o Nuno foram ao tapete mas sem gravidade. Na província de Estremadura a sinalização alem de ser por setas amarelas também existem cubos de granito com azulejos azuis amarelos ou ambos. Em Galisteo ficamos no albergue municipal em que teríamos de pagar 15€ mas negociamos com o responsável e ficou por 10€. 

Jantamos para variar calemares e batatas fritas e pagamos uma pipa de massa. Fomos dar uma pequena volta pela bonita cidade onde havia festa. Aproveitamos para comprar ingredientes para o pequeno almoço. Entre Carcaboso e Aldeanueva del Camiño situa-se um dos monumentos mais emblemáticos de todo o caminho, o Arco de Cáparra, local onde existia uma cidade romana e podemos observar as escavações e ficamos fascinados com o que ali existia há 1900 anos atrás. 

Subimos ao Puerto de Béjar e ali já deu para sentir a chegada ao norte pois a paisagem passou de castanho a verde para nossa alegria. Na descida encontramo-nos com o único Tuga ao longo do caminho, o Óscar que estava também a fazer de Sevilha a Santiago mas a pé!! A subida para o Pico de Dueña já pela sua inclinação não era fácil mas o exército de moscas que se colavam na cara quase nos impedia de respirar, tornaram-na bastante penosa. 


Já perto de San Pedro de Rosados começou a trovoar e juntamente com o por do sol assistimos a um fenómeno da natureza espectacular. Na povoação tivemos sorte de nos cruzarmos com um supermercado que estava já fechado mas a dona estava lá e abriu-nos a porta e assim, além de comprar algo para jantar compramos também para o pequeno-almoço. No albergue o Daniel informa-nos que em Salamanca iria virar em direcção a Portugal por motivos pessoais, indo assim ao encontro dos pais que por lá iriam passar, sendo a única baixa ao longo do percurso. 

Em Salamanca apreciamos a imponente catedral e saboreamos umas deliciosas fatias de “Tapas”. Seguiu-se um percurso plano paralelo á nacional até Zamora atravessamos o rio Douro, demos uma volta pela cidade que está recheada de monumentos. Uns Km’s depois encontramos uma plantação de melancias onde aproveitamos para lanchar e levar algumas connosco o que se revelou bastante desconfortável. Em Granja de Moreruela o caminho bifurca-se para Astorga e depois seguindo pelo caminho Francês ou por Ourense que foi a nossa escolha, conforme inicialmente tínhamos delineado. 

Depois de passar o rio Esla esperava-nos um trilho junto ao rio de grande beleza mas na sua grande parte tínhamos que ir a pé. Depressa anoiteceu e ainda nos encontrávamo-nos no meio da montanha a vários km’s do albergue, colocamos as luzes e fomos ao encontro da estrada para chegarmos o mais rapidamente ao albergue pois já passava das 22h. Chegamos ao albergue em Tábara já perto das 23h e com mais de 9h a pedalar. Jantamos o que nos restava na mochilas e fomos dormir. Em Santa Marte de Terá informaram-nos que a imagem de Santiago Peregrino que se encontra no Pórtico de igreja é a mais antiga existente em toda Europa. Chegamos á região da Sanabria onde se avistavam montanha em todo o horizonte, o guia dizia que iríamos ter que subir aos 1400m de altitude e confirmou-se no Alto de Padornelo. 


 A subida foi dura mas a vegetação luxuriante era um tónico. Alcançamos o alto já quase de noite e fomos obrigados a ir por estrada até ao albergue seguinte em Lubián. Lá tivemos oportunidade de fazer um bom jantar pois o albergue dispunha de cozinha. Fizemos arroz de atum e aproveitamos e fizemos massa para o pequeno-almoço, ou não fôssemos atletas!! As montanhas estiveram sempre presentes até Santiago num sobe e desce constante mas diga-se que os trilhos foram dos melhores ao longo de todo o caminho. Em Ourense encontramos um excelente albergue, estávamos indecisos se iríamos continuar ate ao próximo mas depois de entrar ficamos sem dúvidas. 

Aproveitamos para fazer um delicioso arroz de marisco na cozinha do albergue e lavar roupa já que tínhamos chegado mais cedo que nos dias anteriores. Sábado, o ultimo dia, Santiago não saía da mente de tão perto que estávamos. Cea é conhecida pela broa feita no forno a lenha e de facto foi o melhor pão que comemos em Espanha. A ansiedade de chegar a Santiago apoderou-se de nós, eis que chega o ponto onde avistamos as torres da Catedral, rapidamente chegamos á Praça do Obradoiro onde tiramos as fotos da praxe e fomos á oficina do peregrino obter a nossa Compostela (Certificado que fizemos a peregrinação). 

O regresso, tal como eu e o Zé tínhamos planeado, foi de bike até Amarante enquanto que o Vítor para descansar um dia antes de ir trabalhar optou por vir de carro  com a família que o esperava em Santiago e o Nuno aproveitou a boleia ate ao Porto e depois foi a pedalar até Aveiro. As principais dificuldades sentidas foram a temperatura que apanhamos no centro e sul de Espanha e a consequente desidratação e a alimentação nos meios mais pequenos. Um agradecimento a todos os companheiros de viagem, aos bombeiros de Tomar e Évora, á hospitalidade das pessoas que encontramos ao longo do caminho e um agradecimento especial ao Sr. Jorge Reis da Biciporto. Missão comprida.

Breve Historia sobre a Via da Prata
 A Via da Prata era uma estrada romana que unia Emérita Augusta (Mérida) com Asturica Augusta (Astorga) cruzando de norte a sul o ocidente peninsular. Durante a época do império romano a península ibérica havia uma complexa rede de calçadas numeradas. Mais tarde foram usadas pelos árabes e na época medieval pelos peregrinos. O nome actual deriva do vocábulo Bal’latta árabe com o qual os muçulmanos designaram a larga via empedrada e de sólido traçado que se encaminhava para o norte cristão. Os entendidos dizem que na época romana jamais se conhecia por Via da Prata a calçado nº XXIV.



Resumo do Percurso

Kms Totais – 2300km ( 1000km na Via da Prata 90% Trilhos)
Dias: 14
Horas:113horas
Dificuldade – Alta (No verão)
Dinheiro gasto por pessoa: 110€
Mais informações: joao.nexplore@gmail.com


Daniel Marques
19 anos
Estudante
Bike: Mérida Carbon Team, Rock Shox Sid Team, XT, Mavic CrossLand, IRC Serac

Nuno Oliveira ‘’Pitbull’’
20 anos
Trabalhador fabril
Bike: Orbea Pop R, Rock Shox Sid Team, XT, XTR, Rodi Blackjack, Hutchinson Piton.

João Marinho
21 anos
Estudante Universitário
Bike: Mérida Carbon Team, Rock Shox Sid World Cup, XT,XTR, Mavic CrossMax XL, IRC Serac.

José Silva
23anos
Estudante Universitário
Bike: Merida Carbon Team, Rock Shox Sid World Cup, LX, XT, Mavic CrossMax. IRC Serac.

Victor Cunha
32 anos
Enfermeiro
Bike: Kona Kula Deelux, Rock Shox Duke XC, XT, CrossMax XL Disc. IRC Serac.
Loved the Ride!

5 comentários :

  1. Grande João mais um relato de fazer crescer água na boca... É por estas e por tantas outras que te tenho a ti e ao Zé como ídolos do BTT nacional. Vocês são e serão para sempre ímpares na modalidade.

    Obrigado por partilhares isto com o pessoal, é óptimo poder ler as tuas/vossas aventuras Amigo.

    Venham mais pois tens muitas mais no teu baú :)

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  2. Vou faze-lo este ano dia 27 de Julho, de BTT também, com meus companheiros de viagem, obrigada pelas dicas. :D Salete

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  3. Já fiz os Portugueses, quer pela costa quer pelo interior várias vezes. Já fiz os Franceses. Quero continuar a fazer todos os outros. Depois do vosso relato quem sabe estes não serão os próximos???

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    1. Força nisso companheiro! Este Caminho é mesmo muito interessante a todos os níveis. Bom caminho!

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  4. Fiz a VP o ano passado, mas em 42 dias, nada parecido com o vosso :)
    Ainda é um caminho "rústico", mas certamente já com muitas diferenças de quando o fizeram. Pelo menos, reparei que vários albergues são recentes (dos últimos 5 anos a esta parte).
    Bons Caminhos! :)

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João Marinho
Mountain biker, trail runner & adventure sports addict